O Cadeado de Vidro

Lucas M. Carvalho

Revisão: João Pedro Bellas

Projeto Gráfico e Diagramação: Pedro Sasse

ISBN: 978-65-984572-8-0

Eras Editorial, 2025

Como muitas das histórias sombrias já escritas, esta começa em uma tarde chuvosa e escura, daquelas em que as aves agourentas se agitam nas calhas. Como muitas das histórias engraçadas já escritas, esta história começa com uma grande briga por um motivo estúpido.

E ambas as coisas – a chuva e a briga – foram trazidas por um homem que subiu os degraus molhados, parou diante da porta e bateu muito mais vezes que o necessário para ser atendido.

– Minha nossa… senhor Gorgondel, que surpresa vê-lo… aqui na casa de meu patrão…

O visitante, um senhor corpulento, empurrou o mordomo e entrou mancando no salão principal sem secar os sapatos. Tirou a capa de chuva e a lançou sobre a primeira poltrona. Então apontou a bengala para o nariz do velho e ordenou:

– Chame aquele verme pestilento a quem você chama de patrão.

O mordomo, visivelmente alarmado, subiu a escadaria que dava para a parte mais alta do hall. O visitante coçou o bigode e ajustou o monóculo para olhar a extravagante coleção de quadros que ornamentava o ambiente. As cenas, em sua maioria paisagens impressionistas, tinham molduras que combinavam com o carpete castanho e com a mobília em estilo palaciano, semelhante à dos nobres que haviam erigido sua alta cultura nos últimos séculos. Ambiente presunçoso, pensou escarrando na mesa de centro e se aproximando mais da lareira. Aroma de lenha de ameixeira. Tão previsível. Combina com seu jeito enjoado, Armigal.

Enquanto Gorgondel observava as duzentas e quinze velas do lustre que nunca apagava, o anfitrião finalmente surgiu no topo da escadaria para dar as boas-vindas:

– É deselegante para um feiticeiro entrar na mansão de outro feiticeiro sem ser convidado – censurou a voz estrondosa de Armigal. Parecia ter sido pego de surpresa, porque tinha um pouco de sabão nos cabelos grisalhos, e vestia um roupão de banho florido com um par de pantufas de coelho. – Imaginei que você, sendo Arquimago Superior, dominaria melhor as regras de etiqueta da alta magia. Ah, não, eu me confundi… Eu sou o Arquimago Superior. Acontece que a sua inveja é tão extraordinariamente corrosiva que faz com que eu me esqueça de que tudo o que você tem são meros sonhos.

– Interrompi o seu banho, Armigal? Na próxima vez, tente esfregar até chegar nos ossos, para que esse seu cheiro de putrefação diminua.

– Sempre tão baixo e tão grosseiro. Você não muda, Gorgondel. Veio aqui pedir algumas aulas sobre como insultar com elegância?

– Os barulhos de minhas flatulências são mais eloquentes que seu melhor discurso, meu caro.

– É um poeta! Sinta-se em casa, porque sou um bom anfitrião mesmo quando o convidado é um imbecil. E fique à vontade para deixar o sobretudo na cadeira – ironizou, vendo que Gorgondel já o tinha feito. – Por que roupas tão sombrias? Parece que você acreditou quando disseram que preto emagrece.

Gorgondel respondeu com uma risada, então usou a bengala para derrubar um vaso próximo ao sofá. A cerâmica se espatifou no carpete, e uma poeira fina subiu no ar.

– Ops, acho que deixei cair uma coisa. Espero que não seja importante.

– São as cinzas funerárias de meu bisavô.

– Ah, que lástima.

Armigal crispou os lábios. Uma veia saltava de sua testa, mas ele apenas ergueu o queixo sem se deixar abalar. Então disse:

– Estou curioso para saber o motivo de sua ilustre visita. Veio conhecer minha casa para ver como alguém relevante vive?

– Relevante? – Gorgondel caminhou até o primeiro degrau da escada, pisando sobre as cinzas com os sapatos molhados e fazendo lama. – Vou direto ao ponto, porque não quero mais perder tempo nesse ninho de baratas que chama de casa. Você deve se lembrar de um jovem chamado Melandro. Cabelo comprido, sempre com pressa…

– Nunca vi.

– Não se faça de… – Gorgondel bufou. – Meu aprendiz, que ensinei durante os últimos dezenove anos. Rapaz dedicado, inteligente e promissor. Como nenhum aprendiz que você já sonhou em ter.

Armigal sacodiu a cabeça de modo debochado, e o visitante continuou:

– Ele apareceu morto no Distrito Sul hoje. Boiando sobre o canal. O que você fez?

– Isso é uma acusação séria, Gorgondel. Mesmo para um velho leviano como você.

– Não tão leviano. Afinal, não seria a primeira vez que você envenena aqueles que vivem comigo…

– Ainda magoado por causa do cachorro? – Armigal desceu as escadas com as mãos para trás, com a expressão cínica de quem vasculhava a memória. – Ah, sim, o rapaz de cabelos compridos. Muito, muito inteligente. Por acaso não foi aquele que você enviou para se passar por meu aprendiz, somente para ter acesso à minha biblioteca? O mesmo que roubou minhas pesquisas, então ateou fogo em mais de nove mil livros, destruindo cinquenta e cinco anos de trabalho, incluindo obras antigas que jamais serão recuperadas?

– Viu? Não foi difícil lembrar.

– Sim, o jovem Melandro, agora me lembro com clareza – Armigal desceu os últimos degraus e pegou um charuto em uma das gavetas. Fez um movimento largo, como se fosse oferecer ao visitante, mas em vez disso o trouxe à própria boca. – Eu não o envenenei. Somente… trabalhei com seus desejos. Algumas ilusões… talvez a mulher mais linda que já tivesse desejado… E o jovem preferiu a seguir até as profundezas turvas do canal. Como o antigo mito das sereias.

– Sua pilha execrável de esterco.

– Ah, não se faça de santo. Para que você quer um aprendiz? Para reproduzir no mundo sua sabedoria chorumenta? O lugar já é suficientemente ruim com apenas um Gorgondel. E você ainda saiu no lucro, no final das contas, porque tem as pesquisas que aquele infeliz roubou.

– Pesquisas que você desenvolveu com base no MEU trabalho! Trabalho plagiado, que me garantiria a cadeira de Arquimago Superior, que VOCÊ ROUBOU de mim!

– Ah, você não terminaria nunca aquela sua pesquisa. Você estava ocupado demais tomando de mim a única mulher que já amei, não era? Porque quando Sali…

– NÃO OUSE DIZER O NOME DELA – bradou, erguendo a bengala e empurrando o desenho do grande girassol que Armigal tinha no roupão.

Por um instante, as velas se apagaram. O fogo na lareira assumiu um tom azul índigo, como plasma fantasmagórico, e todas as janelas da mansão se escancararam. O vendaval gelado entrou, erguendo as cortinas como serpentes. Os dois feiticeiros se encararam com olhos faiscantes, e inconscientemente começaram a flutuar alguns palmos do chão. Ao redor, tudo mudava: espelhos se contorcendo, nuvens se agrupando no céu formando a escrita do caos, estrelas mudando de lugar…

– Foi para isso que você veio, Gorgondel? – balbuciou Armigal, diminuindo o tom de voz com cautela. – Para começarmos algo que talvez não consigamos parar?

– Às vezes sinto que meu ódio por você é tão intenso, que eu estaria disposto a correr o risco… – sussurrou.

– Seja racional. Nunca aconteceu aqui, mas já ouvimos as histórias de outros mundos… Feiticeiros de nosso nível não podem duelar.

– Estamos em um ponto sem volta. Precisamos resolver essa… questão entre nós.

– Não fale asneiras! O mestre de meu mestre cometeu esse erro em Antares… Entrou em um combate que durou séculos a fio, modificando o relevo e a vegetação, afetando o curso de civilizações e desestabilizando o espaço-tempo. Ou pior: você lembra de Agrapia e Ludenara? Ouvi falar que as duas duelam até hoje, por mais de cem mil anos, e não conseguem mais parar, a ponto de desolarem seu mundo por completo e se perderem nos labirintos sem fim das Trevas Externas. Estamos ridiculamente perto de cometer esse erro.

Os sapatos de Gorgondel e as pantufas de coelho de Armigal tocaram novamente o carpete. O anfitrião estalou os dedos, fazendo as janelas se fecharem e o lustre se reacender, reestabelecendo o tom aconchegante da mansão. Então pigarreou.

– Bom, acho que precisamos conversar civilizadamente. Isso é inadiável. Venha comigo.

Caminhou até uma porta lateral, que levava a um amplo corredor. Gorgondel o seguiu, mancando. De alguma maneira o caminho era comprido, muito maior do que a mansão do lado de fora, e tinha uma centena de portas em ambos os lados, alternadas com tochas que lembravam as de um antigo castelo medieval. Uma das portas levou a um segundo corredor, que era curvado, de modo que logo estavam caminhando de ponta cabeça. Terceira porta à esquerda, uma estante de livros, sexto livro da oitava estante, um alçapão secreto. Seguiram uma ponte sobre o céu, entraram em uma porta para um túnel escuro. É estranha a maneira como construiu sua casa, pensou Gorgondel, sem admitir para si mesmo o quanto esteve curioso, nos duzentos últimos anos, para conhecer o lugar.

– Apesar de sua inteligência de toupeira – disse Armigal, quando chegaram em uma sala arejada, decorada com pequenas estátuas de anjos com cabeça de javali. – Presumo que saiba o motivo de eu ter o trazido para cá.

Gorgondel já tinha suas suspeitas, mas era difícil de acreditar. Observou o ambiente luminoso um pouco mais, em especial o objeto sobre a mesa de centro que destoava do resto: um livro de capa preta.

– Você está sugerindo algum tipo de… acordo?

– Não qualquer tipo. Sugiro um Pacto de Savad.

Gorgondel ficou em silêncio. Então deu uma risada escandalosa.

– Quer que façamos o pacto de sangue mais solene disponível em todos os infinitos códices?

– Não vejo solução mais adequada. Olhe.

O livro se ergueu no ar, e uma pena flutuante saiu da gaveta e começou a escrever na capa:

– SANGUE, ALMA, VONTADE, ARBÍTRIO E DESTINO –

O livro inviolável, inalterável e indesculpável que registra o pacto entre os cavalheiros

Armigal Van Hors della Court

&

Gorgondel de Zair’Liebz

– Eu não entendo por que diabos eu aceitaria…

– Não esperava que entendesse, seu quadrúpede – Armigal conjurou duas cadeiras de mogno para que se sentassem. A sua era ridiculamente mais confortável. – O Pacto de Savad é uma escolha rara e extrema, e geralmente envolve amigos, familiares, amantes, sócios… Mas quem disse que não pode ser feito entre rivais?

– Você quer uma trégua? – Os lábios de Gorgondel tremiam, e a respiração se acelerava. – Como ousa? Eu jamais vou dormir com tranquilidade, ou aproveitar a doçura de uma fruta, enquanto seu maldito coração estiver batendo…

– Não, não. Você ainda não entendeu meu ponto, o que não é surpresa. No mundo animal, quando dois lobos disputam território, eles dificilmente lutam até a morte. Não é vantajoso para ninguém, porque mesmo o vencedor terminaria com ferimentos irremediáveis. Para evitar isso, a natureza desenvolveu mecanismos de disputa: a postura, o rosnado, a confiança. O lobo perdedor geralmente sabe que perdeu, e aceita de bom grado se afastar, evitando qualquer contato físico na maioria das vezes. No nosso caso… Um duelo seria desastroso, como bem sabemos. Por isso, proponho que criemos nossos próprios mecanismos de disputa. Com regras que nós dois precisamos redigir e aceitar em comum acordo, antes de assinarmos.

Gorgondel respirou fundo. Sentiu a adrenalina queimar em suas veias. Parecia uma péssima ideia.

Mas ao mesmo tempo era a melhor de todas.

– Então… isso seria… uma espécie de jogo?

– Chame como quiser – Armigal cruzou as pernas, e Gorgonzel virou o rosto porque viu no roupão algo que realmente não queria ter visto.

– E quais são os termos? – perguntou, ainda olhando para o lado. – Aquele que perder o jogo morrerá?

– Você realmente não entendeu a metáfora dos lobos, não é? Não, a morte é uma coisa muito vulgar. Somos homens civilizados, e podemos fazer melhor do que isso.

– Então sugiro a servidão sem fim. Perda total dos poderes. Obediência incondicional ao vencedor até o último suspiro de vida.

Houve silêncio. Os dois permaneceram se olhando fixamente. Uma gota de suor escorreu pela testa de Armigal.

– Você é ousado, Gorgondel. Mas eu gostei. – O livro se abriu no ar e a pena começou a trabalhar. – Mas não acho que a perda dos poderes seja necessária. A obediência eterna já é o bastante. De acordo?

– De acordo.

A pena riscou as últimas palavras e escreveu novamente.

– Como voto de confiança, vou deixar que você escolha o tipo de competição que faremos – disse Armigal.

– Muito bem… – Coçou os bigodes. – Proponho que cada um de nós escolha um campeão. Alguém que será nosso representante. Eles lutarão por nós.

– Três campeões para cada – contrapôs Armigal. – Não confiarei minha vitória a um só. Chances multiplicadas são mais justas para mim e para você.

– De acordo.

– E nós não podemos utilizar magia diretamente neles.

– E como vamos convencê-los a agir?

– Isso você resolve sozinho. Eu já sei o que vou fazer.

Os dois ficaram quietos por algum tempo, se encarando. Quando a pena parou, o silêncio foi absoluto.

– E qual será a tarefa? – perguntou Gorgondel, enquanto o sabão dos cabelos de Armigal começava a gotejar no carpete.

– Eu tenho algo em mente. Você vai concordar comigo, quando digo que fazer os campeões lutarem até a morte seria bárbaro demais, então pensei em… um enigma.

– Ah – Gorgondel pareceu decepcionado. – Eu gosto de lutas até a morte.

– Por um instante eu tinha esquecido que você era um selvagem. Bom, podemos encontrar um meio-termo nisso. Algo que demande força e inteligência, talvez…

Houve silêncio, enquanto os dois pensavam. Finalmente, Gorgondel sorriu e disse:

– Há uma coisa guardada em meus cofres. Algo vindo de muito, muito longe. Uma relíquia forjada por mãos esquecidas há centenas de milhares de éons.

– Você não está falando do… – começou Armigal. Então arregalou os olhos. – Ah, sim… É uma excelente ideia…

Cerca de cinco horas depois, estavam terminando de redigir o pacto. Toda contribuição de Armigal era seguida de uma correção de Gorgondel, e vice-versa. Os dois repassavam mentalmente todos os pontos, tentando prever qual deles lhes poderia ser favorável, e evitando aqueles que o inimigo certamente usaria. Era um jogo sutil. No fim, chegaram em um contrato de trinta artigos impecáveis.

– Algo mais? – perguntou Armigal.

– Falta uma coisa. O palco do espetáculo. Onde acontecerá? No nosso mundo?

– Não. – O velho grisalho estreitou os olhos. – Vivemos em um lugar complicado. Quanto a escolher um mundo… Acho que nunca chegaríamos a um consenso. Sugiro o bom e velho sorteio.

Gorgondel arqueou as sobrancelhas, mas não discordou. Ficaram quietos. O suor escorria de seus rostos. Quando a pena terminou de escrever, se puseram de pé. Primeiro Armigal a segurou, espetou as costas da mão, e assinou na página adequada com o próprio sangue. Em seguida, foi a vez de Gorgondel. O livro se ergueu no ar, e uma longa corrente de ferro surgiu e o amarrou por todas as direções, o selando para sempre.

– Está feito.

– E que vença o melhor.

Cena Um

Aquela em que os campeões são escolhidos,

uma moça se apaixona e um ladrão escapa da forca de uma forma inusitada.

Armigal e Gorgondel, referidos neste livro como PATRONOS, apostam com base em uma complexa estrutura de regras listadas no presente código – estrutura essa doravante referida como JOGO. Aquele que vencer receberá a ‘obediência incondicional do perdedor até o último suspiro de vida’, objeto doravante referido como PRÊMIO.”

Artigo 1º

Para que possamos entender essa história, precisamos viajar no tempo e no espaço através das infinitas estruturas cósmicas, explorando as extremas temperaturas do universo, com suas forças esmagadoras e cores que nenhum artista conseguiria conceber. Devemos romper o plano da metáfora, a beleza da poesia, as letras que escorrem como gotas em um vidro embaçado para empoçar a inteligência humana. Viajamos até um mundo pequeno, iluminado por três sóis e nove luas, escolhido entre octilhões de outros.

E é aqui que nossa história começa de verdade.

Era uma madrugada soturna. Um rapaz magrelo e de roupas largas caminhava apressadamente pelo Largo da Carioca. Espiava por cima do ombro, se esgueirando pelas sombras das árvores, a fim de evitar o vulto que farejava seus passos desde que havia saído daquela suspeita loja de penhores na Rua do Senado. Não, não, de novo não, pensou. O que você quer comigo, sua praga?

Contornou o chafariz e deu meia volta, a fim de tentar despistar o perseguidor. Por um instante parou e teve a esperança de ter conseguido. Mas ele sabia que sua alegria não ia durar. Nunca durava. Não para alguém nascido como ele.

De repente sentiu um golpe forte nos pés, que o fez cair de cara no chão de pedra.

– Que surpresa agradável… – O agressor caminhou lentamente com seus sapatos lustrados ao redor da cabeça do rapaz, enquanto ele cuspia um dente. – Se não é o jovem Gonzaga, novamente pegando emprestado sem intenção de devolver.

– Não, senhor Luva-branca! Não estou roubando, juro!

O jovem sentou e se arrastou até tocar as costas na fonte. O misterioso homem ajustou o terno negro e a cartola antes de inclinar o rosto, que talvez estivesse sorrindo por trás da máscara de prata sem expressão. A mão direita, na qual usava a lendária luva de seda, acionou um pequeno bastão retrátil que se tornou uma bengala.

– Vejamos, pois…

 

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